Antigo editor da revista MAD Brasil e autor dos Relatórios Ota fala sobre quadrinhos e o filme que farão sobre sua vida.
Otacílio Assunção, o fantástico Ota, foi super receptivo ao meu convite para esta entrevista. O resultado não poderia ser melhor. Curtam esse bate papo, aproveitando para conhecer um pouco mais desta carismática figura.
- Quais os principais fatos desses 40 anos de carreira?
Acho que o que me tornou conhecido mesmo foi o Relatório Ota, que comecei a publicar na segunda série da Mad, mas acho importante a fase das revistas de terror da Vecchi. Durou só uns 4 anos, mas muita gente importante no cenário das HQs apareceu ali. Eu acho que fiquei na Mad tempo demais. Deveria ter pulado fora quando a Record parou de publicar no ano 2000. Mas acho que a parte mais importante está começando agora. Só que os quadrinhos estão ficando num plano menor.
- E com a chegada da internet e das novas tecnologias, o que mudou na vida do Ota?
Acho que fui, se não o primeiro, um dos primeiros cartunistas brasileiros a ter um site na internet. Assim que ela começou a se popularizar (no Brasil, por volta de 1996) entrei e não saí mais. Comecei a sentir que o futuro estava aí. Que em algum momento o papel iria acabar e ser substituído pela tela e que, como nos livros e jornais das histórias do Harry Potter, as imagens poderiam se mexer. Comecei a me movimentar nesse sentido. Hoje, eu estou produzindo games para crianças. É uma linguagem que me fascina.
- Você está vivendo uma fase onde muitas coisas estão acontecendo e entre estes acontecimentos está seu relacionamento com o cinema. Depois do “Malditos Cartunistas”, um filme sobre sua trajetória está a caminho.
Um amigo de longa data, o Franz Valla, falou que eu merecia virar tema de um documentário. Iria ser um curta, mas quando ele falou do projeto pra Tatiana Issa, ela se encantou e disse que ela mesma, junto com o Raphael Alvarez, iria dirigir o filme e que seria um longa. Depois do avassalador sucesso de crítica do filme Dzi Croquettes, eles estavam procurando um assunto para o segundo filme e sentiram que podia ser esse… Isso foi a melhor notícia que recebi em 2010. Não é qualquer um que vira tema de filme da Tatiana Issa. Fiquei nas nuvens. Ela não é só um rostinho bonito e tem uma força espiritual fora do comum. Com a escolha do Igor Cotrim pra fazer o meu papel nas dramatizações a coisa ficou mais consistente ainda. Mas se engana quem pensa que esse vai ser apenas mais um documentário sobre quadrinhos como o “Malditos”. É muito mais. Claro que os quadrinhos vão estar presentes o tempo todo, mas será um filme para todo mundo ver, não só os fanáticos por quadrinhos. Ouso dizer que esse filme vai mudar também o conceito de documentário.
- E o lançamento do segundo volume do Relatório Ota?
A série dos Relatórios continua. Será uma coleção enorme. Estou colocando no liquidificador tudo que fiz na época da Mad e adaptando pros dias de hoje. Na verdade, não é um livro de quadrinhos, mas um gênero novo, que pode ser classificado como “literatura desenhada”. Mas o ritmo das livrarias é mais lento. Está demorando mais a acontecer do que eu queria.
- O que está acontecendo de interessante no mundo dos quadrinhos?
Está havendo uma transição. Os quadrinhos deixam de ser um produto de massa e viram uma coisa cult. Parei um pouco de acompanhar porque é difícil separar o joio do trigo. Ao mesmo tempo que tem coisas geniais, como o Neil Gaiman e a Marjane Satrapi, tem muita porcaria sendo lançada.
- Loucura ou sanidade?
Bom, normal eu não sou, né? Não sou exatamente louco, mas tendo a ser classificado assim porque fujo dos padrões. Mas, é claro que não regulo bem da bola.
- Santidade ou pecado?
Nem um nem outro. Não sou santo, mas não chego a ser pecador. Na verdade, tenho um código de princípios muito forte.
- Público ou privado?
A privacidade é uma coisa que não existe mais nos dias de hoje. Antes era só Deus que via tudo, agora é o dono do Google.
- Ota no momento da criação:
As ideias vêm o tempo todo. Ando com um bloquinho no bolso do colete e anoto tudo. Mas, na hora que preciso produzir para cumprir algum prazo, elas vêm do mesmo jeito.
- Aquele garoto que está começando a fazer seus primeiros rabiscos e sonha em conseguir viver de seus futuros desenhos. O que dizer para ele?
No meu tempo, havia mais veículos impressos, então, um garoto de 17 anos podia chegar na redação de um jornal e no dia seguinte sua tira estar sendo publicada… Eu sei que tive muita sorte, mas antes era mais fácil. Hoje não tem essa sopa. Entretanto, há a possibilidade de publicar na internet. O problema é se sobressair na multidão. O conselho que dou é: Se o garoto, ou garota, quer mesmo seguir a carreira, deve perseguir seus objetivos e se agarrar às oportunidades que aparecem.



