Por: Fabio da Silva Barbosa
Rafael Campos Rocha é o nome de mais essa grande revelação do quadrinho nacional. Além de produzir para grandes veículos de comunicação, ainda atua com blogs e zines ( http://rafaelcamposrocha.blogspot.com). Atualmente ele está lançando o livro “Deus, essa gostosa” e já tem planos para um próximo. Fala aí, Rafael. Conta para o pessoal.
Deus, essa gostosa: Como foi a construção dos personagens e a criação das primeiras histórias?
A primeira aparição de Deus foi em uma série de 4 pequenas histórias baseadas em textos apócrifos sobre Cristo. A série tinha o pernóstico nome de Tetralogia Cruciforme e, por sua vez, fazia parte de um fanzine digital que enviava para uma lista de e-mails desde 2007. Voltando ao personagem, como eu disse, Deus “cresceu” na história um pouco à minha revelia. Terminada a série de histórias sobre Cristo, resolvi fazer uma outra série de 4 histórias, dessa vez com Ela como protagonista. Desde a primeira aventura solo já se chamava “Deus, essa gostosa”, que foi o nome mais escandaloso, irritante e debochado que me ocorreu. Essa série foi responsável pelo meu ingresso na imprensa com mais assiduidade. As 4 histórias foram publicadas pela Piauí e a Folha de São Paulo passou a me chamar para criar cartuns para o caderno Ilustríssima.
Sobre a construção do personagem, acho que sua personalidade já estava pronta desde a sua primeira aparição, lá nas histórias sobre Cristo. A ideia era fazer um Deus oposto ao Deus da Civilização. Esse Deus, como sabemos, é masculino, solar, autoritário, auto-consciente, caucasiano, agressivo, nacional e calcado na tradição e na Cultura. Portanto, eu queria um Deus feminino, noturno, pacífico, contra-cultural, irracional, não-ocidental etc. O que já expressa minha opinião sobre coisas como o Estado-Nação, a Civilização Ocidental, a Verdade e a Cultura. Para mim, são todos pretextos para o imperialismo, o roubo, a exploração e o estupro. Sem mais.
E a reação do público? O que o pessoal tem achado das aventuras de Deus?
Olha, meus amigos se divertem e a lista de pessoas que pedem para receber os e-mails vem crescendo. Muitos leitores do jornal também tornaram-se leitores do zine mensal, mas, é claro, muita gente detesta. O trabalho foi chamado de “um escracho ignóbil e malicioso” em uma carta muito divertida que o jornal recebeu e, volta e meia recebo algum e-mail dizendo que vou arder no fogo do Inferno. Enfim, as pessoas que gostam, gostam porque Ela é Deus, criadora da Vida e do Universo, e é mulher, negra, sexuada, amante de bebidas fortes, punk-rock feminista e futebol argentino. E as pessoas que detestam, detestam justamente por esses mesmos motivos.
Além da divulgação pela internet, quais outros meios você tem usado para fazer suas histórias chegarem aos leitores?
Bom, ela aparece de 15 em 15 dias no caderno ilustríssima, da Folha de São Paulo. Já esteve na revista Piauí, na revista especializada Graffiti 76°/ quadrinhos, na revista + Soma, além de aparições em outras revistas independentes. Estou fazendo duas histórias para a revista Samba, também especializadas em quadrinhos. E acabei de lançar um livro pela Cia das Letras, com uma história de umas 70 páginas.
Há pouco tempo aconteceu o lançamento do seu trabalho em São Paulo.
Sim, é justamente esse livro, publicado pela cia.das Letras que acabei de lançar. Se chama “Deus, essa gostosa” e é uma história com 70 e tantas páginas em que conto uma semana da vida de Deus. Nessa semana, podemos conhecer sua rotina como dona de um sex-shop, seu lazer, quase sempre ligado aos bares e restaurantes (Deus adora uma cerveja com os amigos), sua paixão recalcada por Satã, Senhor dos Infernos, seu exercício diário com o jovem Eder Jofre, sua transmutação em predadores e presas africanas e sua paixão pelo futebol.
E virão novas aventuras por aí?
Já estou desenhando outra história, que deve ter umas 80 páginas. E tenho outro roteiro iniciado. Uma editora de Recife, a “livrinho de papel finíssimo” está preparando uma coletânea. E continuo fazendo minha tira para a Folha e histórias independentes para revistas especializadas em quadrinhos.






