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Resenha: Livro O Perseguidor, de Julio Cortázar

Edição enviada pela editora para a redação do Quadrinho.com

O Perseguidor é uma história contada sob o ponto de vista de Bruno V., um repórter, crítico de música e cronista da revista “Jazz Hot”. Bruno vive em Paris e acaba de publicar um livro – sucesso de venda – sobre a obra do jazzista Johnny Carter. Para isto, Bruno acompanhou o dia a dia da vida de Johnny, conheceu seus hábitos, acompanhou suas turnês, conheceu seus amigos e suas loucuras mas, acima de tudo, se tornou melhor amigo e confidente do artista.

Johnny é um gênio da música. Possui um talento incomparável. Com seu sax ele encanta plateias e tem o respeito dos profissionais do ramo. Sua obra está em um plano de absoluta liberdade criativa. O jornalista revela que em seu livro se limita a falar apenas da música de Johnny. Para poupá-lo, não mostra o outro lado do artista: um ser esquizofrênico, usuário de drogas, alcoólatra e de vida promíscua.

Johnny, em seus delírios reflexivos, tenta explicar para seus amigos – sem sucesso – como se sente ao tocar:

“Mas não, eu não me abstraio quando toco. Só que troco de lugar. É como num elevador, tu estás num elevador falando com os outros, e não sentes nada estranho, e entretanto vai passando o primeiro andar, o décimo, o vinte e um, e a cidade ficou lá embaixo, e estás terminando a frase que começaste ao entrar, e entre as primeiras palavras e as últimas há cinquenta andares. Percebi quando comecei a tocar que entrava num elevador, mas era um elevador de tempo, se é que posso te explicar assim”.

Mesmo em suas graves crises, as pessoas em sua volta cuidam e satisfazem os desejos de Johnny. No fundo, confessa Bruno, “somos um bando de egoístas”. O fracasso de Johnny significaria o fracasso de todo mundo que de alguma forma necessita dele. Seja os músicos de sua banda, que se tornariam em músicos comuns sem o seu brilho. Ou o próprio livro publicado, que se transformaria em um desastre caso o jazzista decidisse confessar publicamente que a obra não representa a sua verdadeira vida e seu legado musical.

O Perseguidor, escrito pelo argentino Julio Cortázar, é um livro denso. Seus textos são reflexivos, em que se explora os delírios e reflexões de seus personagens. Para gostar do livro, é necessário que você “entre” na cabeça de Johnny, entenda os seus surtos. É necessário que o leitor busque sentir o que o personagem sente.

“Johnny necessita naquele instante tocar o solo com sua pele, ligar-se à terra de que sua música era uma confirmação e não uma fuga. Porque também sinto isso em Johnny, e é fato de que ele não foge de nada, não se droga para fugir, como a maioria dos viciados, não toca sax para agachar-se atrás de um fosso de música, não passa semanas encerrado nas clínicas psiquiátricas para sentir-se ao abrigo das pressões que é incapaz de suportar. Até seu estilo, o mais autêntico nele, esse estilo que merece nomes absurdos sem necessitar de nenhum, prova que a arte de Johnny não é uma substituição nem um complemento.”

 A inspiração Cortázar para escrever o livro foi o jazzista Charlie Parker.

Imagem de Amostra do You Tube

Imagem de Amostra do You Tube

A edição possui uma impressão de qualidade, em P&B, papel de gramatura 150g em seu miolo e capa dura. As ilustrações ficam a cargo de José Muñoz, quadrinista argentino, que tem em seu portfólio trabalhos   como “L’Étranger”, “Guerra al malón”, “I nove miliardi di nomi Dio”, “Las fieras complices” e “La agonia de Haffner, el rufián melancólico”. A característica marcante de seu traço é o contraste de claro e escuro adotado em seus desenhos, perfeito para o clima do livro.

O Perseguidor
De Julio Cortázar
Ilustrações: José Muñoz
Tradução: Sebastião Uchoa Leite
Editora Cosac Naify
96 páginas
Capa dura – Miolo offset 150 g
1ª edição – 2012
Tiragem: 2.000 exemplares

www.cosacnaify.com.br

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