Ela me disse olá com a mesma sinceridade que pedia pão pela manhã na padaria. Não há sentimentos envolvidos em questões irrelevantes de semântica e convivio social.

No meu caso agradeci o olá com o meu gesto habitual, que nunca sabemos ser desprezo, felicidade plena ou nada. Ainda assim faço cumprimentos sistemáticos que refletem como um espelho o que pensam de mim.

Apenas aceito a opinião velada de meus personagens, esses amigos sinceros, que não me saudam com olás mas com histórias serenas do que sou e do que poderia vir a ser. Eles refletem pedaços de mim, de minha história.

Em algum outro lugar do universo há alguém dizendo um olá acompanhado de um sorriso. Talvez o sorriso seja o mesmo de quando compra pão pela manhã, mas certamente é melhor do que a indiferença que reina nas terras digitais, que hoje retorno como escriba.

Há uma nave ali fora. Pode ser de papelão, mas nela sou senhor e contramestre, sou um capitão de fragata de nuvens, e vejo através dos tempos o que eu sou e o que poderia ter sido. Me convenço facilmente que poderia ser algo melhor, por esse e outros motivos fico feliz em retornar a essa casa.

Tomo um café enquanto a pessoa do olá se distancia em outro olá e outra pessoa.

Eu fico sorrindo, solitario em meio ao café quente, como um louco vendo uma pintura abstrata.

Assim caminho para casa, construindo com os tijolos da calçada minha história escrita.

E vou eu. Certamente nos encontraremos por aí. Lembre-se de sorrir, ao dizer olá. Ainda que não seja eu, mas se não fizer bem ao transeunte solitário, fara bem a sua alma solitária.

E neste canto primeiro, com as velas estendidas e o vento quente do verão a soprar, eu caminho ciente de tê-los em minha jornada.

Sejam bem vindos novamente a ponte.

Captain

Olá meus amigos e amigas,

Venho justificar minha “faltar de estar” ou simples ausência. Resolvi me atrever a escrever algo longo, e como todos sabem, as coisas longas demandam mais tempo, por isso minhas atualizações tem sido mais contidas.

Mas não abandonei esse espaço, ou mesmo as tramóias de meus personagens que sorrateiros tendem a criar situações embaraçoras para que eu, enquanto escritor, seja obrigado a rever o próprio status do mesmo.

Por hora, registro apenas “estamos trabalhando para melhor atendê-los”,

Até breve,

Boa Jornada

Acima de nós e das luzes noturnas que saturam as cidades, estrelas insistem em brilhar. Assim nós nos guiamos agora por bussólas cegas, na eterna procura da poesia, entocada em cantos obscuros das cidades, em meio ao lixo que produzimos diáriamente.

Mas essa procura nunca é uma busca vã. Em meio aos sons e as questões mais simples descobrimos muito do que poderia vir a ser uma outra vida, onde as estrelas se sobrepõe as luzes capitais, e o campo continua verde.

A profissão do futuro será uma arqueologia revista em diferentes tipos. Tenho uma predileção pela arqueologia humana, onde atrás das telas de cristais liquidos, encontram-se os amigos de outrora, aqueles que agora, pela distância e pelo presente encontram-se presos a uma nostalgica lembrança perene.

Devo dizer que essa será uma grande profissão. Sinceramente não o sei. Apenas tenho crença que em determinado momento vamos nos reencontrar com aqueles que deixamos passar muito rápido pela nossa existência. Esses cometas que brilham mesmo com as luzes de neon.

Mas a própria arqueologia humana, não pertence a todos. A novíssima geração, que conversa virtualmente, que mantém encontros via mensagens de 160 caracteres, que tem afinidades com vizinhos apenas se estes frequentarem essa ou aquela comunidade virtual, para esses será necessário inventar-se uma nova forma de arqueologia. Pois o que eles perdem, é o tempo, e esse precioso não pode ser considerado assim, tão desprezível.

Eu acompanho, minhas estrelas, meus cometas, meus sonhos escondidos em pequenos versos. Eles resistem, escondidos entre as ondas wi-fi que agora dominam minha cidade.

Em um bar qualquer, perdido em qualquer lugar, Sanka*, o Samurai Jamaicano, decepcionado com a vida tenta se embebedar tendo pouco mais de R$ 10,00. Sua cara de coitado não engaria o garçom, afinal, personagens fracassados passavam por ali o tempo todo.

Sanka se encontrava sentindo miserável.

Pirandelo, o garçom resolveu parar de servir depois do terceiro drink.

Sanka: Ei eu não estou tonto ainda!

Garçon: Quem falou sobre estar tonto? Eu acho que você está sem dinheiro!

Era fato. Ficou imaginando o que poderia fazer para mudar a sua situação, afinal seus dois últimos trabalhos ficaram inconcluídos. Devia ter sido um personagem de publicidade. Pelo menos a publicação era certa. Personagem de quadrinhos? Independente? No Brasil? Por favor…. Seu pai, um respeitado rotulo de ervilha globalizado  ficaria decepcionado…

Desse modo não conseguiria fazer absolutamente nada. Precisava de novos horizontes criativos. E precisava de alguém que acreditasse nele.

Buscava o descanso do álcool, como se isso pudesse fazê-lo sentir melhor.

Fazia, e ele começou a argumentar com uma nota de dez reais nas mãos (teria que ir embora a pé hoje).

(Alguns quilomêtros e drinks baratos depois…)

.

De onde ele tinha tido essa idéia ele não fazia a menor noção a essa hora da noite. Tinha alugado uma vaga para dormir dentro de um quiosque num shopping famoso. Ela até amplo o cubículo. Os seguranças do shopping não o incomodavam, e em troca ele de vez em quando arrumava um ou outro refrigerante.

O Cerejeiro estava lá esperando ele. Batendo o pé e olhando o tempo inteiro para o relógio.

Cerejeiro: Você está parecendo bêbado.

Sanka: Não sou politicamente correto, man!

Cerejeiro: Nem eu. Talvez isso seja uma leve pista de porque não conseguimos ser publicados.

Sanka: Não. Isso é coisa dos AUTORES*. Quando eles querem eles conseguem o que querem. Veja só, ouvi boatos que o “tal” (faz aspas com os dedos)  vai conseguir publicar personagens alemães para um Festival.

Cerejeiro: Bem, eu ando tentando uma ponta na capa…

Sanka sentiu seu sangue jamaicano subir até que as palavras de Bob (marley, claro) falaram mais alto* e ele se acalmou. Sentou no cubículo, e ficou observando a foto de Antonio Carlos Bernardes. Forévis. Mussum que tinha sido feliz.

Sanka :P odíamos tentar uma animação.

Cerejeiro: Claaaarrroooo… (o cerejeiro já trancava as coisas). Aí nós convencemos us dois caras que não querem sequer fazer uma reles história em quadrinhos a convencer um punhado de outras pessoas, para fazer com que nós sejamos estrelas.

Sanka: Mas é uma boa idéia! Eu deixo você aparecer em episódios especiais.

Cerejeiro: E eu deixo você convencer o patrão.

Sanka achou melhor dormir. Depois teria outras oportunidades similares. No dia seguinte ia tentar uma vaga na banda de uma personagem que, pelo menos aparentemente tinha muito mais chances do que ele. Ela era um personagem de mangá. Tinha até SITE próprio!!! A empresária iria recebê-lo…

*Suponho que esteja se referindo a Redemption Song do Bob Marley. Eu acho…

Quem é quem no nosso universo

Sanka: Personagem lançado em revista independente pelo Emcomum Estúdio Livre em 2004. Nunca mais conseguiu outro serviço (interpretava um Samurai Jamaicano)

Cerejeiro: Personagem lançado no Tratado da Autêntica Cereja. Tenta viver do estrelato obtido com o título em 2001, mas o máximo que conseguiu foi pontas em revistas que nunca foram lançadas.

Autores: Suponho que sejam Amauri e Wilson. Ambos sem tempo para dar atenção a um jamaicano e um vendedor de cerejas.

O alter ego de Faubin cursou o Artes Cênicas pela EBA/UFMG, mas por uma caridade ás pessoas que gostam do bom teatro, desistiu em tempo. Assim todas as suas histórias ficam parecendo pedaços de peças.

Apesar disso, ou por causa disso, muito do que ele escreve tem embasamentos muito distante dos grandes mestres dos quadrinhos, flertando descaradamente com Samuel Beckett, Brecht e outros, que parecem tão estranhos a esse ambiente quanto ele parecia no ambiente teatral. Não é de se admirar que um de seus livros de cabeceira seja “Um Estranho numa Terra Estranha” de Robert A. Heinlein.

Assim, a tag teatro, passa a fazer parte dos contos que originalmente assumiram características mais teatrais do que literárias ou mesmo dos quadrinhos. Curiosamente, ele não resiste a ironia….

Os personagens se repetem. Autores, normalmente o próprio Amauri, e eventualmente o Sr. Wilson, ambos trabalharam em dois trabalhos publicados pelo Emcomum Estúdio Livre (o único estado de espírito com CNPJ).

Sanka, o Samurai Jamaicano, Melville, o Cerejeiro, e até Melissa eventualmente fazem parte de suas aparições. Em cada um desses eles assumem o papel de um personagem novo, em síntese, os personagens assumem as características dos novos como atores.

Enquanto ninguém que chamar o carro do hospício, ele (ou eu) continuaremos dando voz a eles, por via desse universo digital.

Espero que curtam a experiência.

Estou receoso de confessar que meu personagem secretamente não deseja ser um simples vendedor de cachorro quente, mas alimenta sua alma com desejos de poder voar.

Vez por outra o surpreendo em beirais, em bordas de edifícios, ou simplesmente observado os aviões que partem da Pampulha. Sei por onde passa pois o cheiro de cachorro quente parece que o acompanha, como um perfume perverso.

Se tem nome não me disse, por timidez ou desconfiança, coisa de personagem que veio acompanhado do olhar sorrateiro do escritor. Sei apenas que um dia encontrou uma construção e subiu, como numa música de Chico Buarque de Holanda.

Read more…

Onde estariam os violoncelos no concerto dessa noite? Provavelmente perdido entre a alta percussão que a cidade, atenta e insone insistia em tocar, escondida em porões e locais afastados.

Assim, a melodia da noite continua dia após dia, e eu encontro o conforto dos violoncelos apenas quando a madrugada divisa o dia, e a alvorada nem ilumina, nem deixa de iluminar o novo amanhecer.

Assim, quando o silêncio parece insuportável, e os ouvidos estão cansados de tanto ruído desgastante, ao longe, e com paciência, antes que os primeiros raios de sol encerrem por vez a sinfonia, ao longe escuto-os, como uma oração para que o dia seja mais breve, mais sincero, e que a noite que se seguir seja mais silenciosa.

Read more…

Quem passa por aqui com frequência deve estar reparando que os textos anteriores andam meio truncados. Isso ocorreu devido a um problema na versão 2.8 do Word Press que quase me fez perder todos os textos publicados.

Eu vou resolver a questão com a máxima brevidade possível, mas como para frente é que se anda, vamos lá, aguardar meu tempo e minha vontade.

Um abraço e até breve.

A vontade da palavra foi escrita por um desses vendedores cegos de loteria que normalmente frequentam o centro da capital mineira, cada vez mais escassos esses bilhetes, ainda fazem parte do meu imaginário.

Certamente são tambem fadados a uma profissão em extinção. Estão juntos aos engraxates, aos amoladores de facas, aos sonhadores.

Estamos virtualmente num tempo que destina cada dia mais tempo para coisas sem importância. Nossa esssência deve ter o peso de uma pena, pois assim andamos leves como os anjos. Mas nossa essência não pode ser artificial. Não deve ter sabor artificial de felicidade.

Deve ter a incerteza do bilhete que o cego vendia na esquina, aos gritos de acumulada, o brilho dos sapatos lustrosos (do tempo que as pessoas olhavam para eles) e a ponte que só os sonhadores podem ter, para ligar o hoje ao amanhã, através do olhar tranquilo da primeira chuva de verão, ou da primeira brisa de inverno.

Assim são os tempos que vivemos, e os tempos incertos que desejo.

A todos um ótimo junho. Breve, novos sonhos, embrulhados em palavras, disfarçadas de histórias, nem todas alegres, nem todas tristes. Todas pontes, todas muros.

Tenho a sensação de que já disse tudo o que irei escrever, mas não é essa a sensação que todos nós temos em determinado momento?

Fiquei ouvindo um novo disco com os velhos ouvidos, aquele que abandonei quando quis crer não precisar de novas canções. Bem, o fato é que precisamos sempre de novas canções. Assim funciona a vida.

De algum modo minhas lembranças, assim como a de meus personagens está diretamente relacionada com a memória que meu corpo possuí­. Essa memória que não se desfaz no tempo e nem nas lembranças mais simples.

Meus personagens estão no balcão. Descansam, reclamam da vida, dos impostos, da falta de serviço e, num afã revolucionário, reclamam de mim.

Finjo que não os escuto, e pelas manhãs tardias de meios dias ligeiros, eu leio o que eles escreveram sobre mim. São transcrições perfeitas. Encenaria qualquer uma delas.

Algumas pessoas tem um certo problema de identidade. Meus personagens não. Talvez se espelhem em mim. Eu tenho absoluta certeza de todos os que sou. Sou um pouco dessa brisa que corre, dessa música que toca, que consegue alcançar o que eu não consigo.

Faço parte, e isso me faz tijolo, parte de algo maior, amplo, irrestrito até o teto. Teto esse que varia conforme tocam as músicas e trocam-se as estações.

Em inverno eu sempre estou em casa, e eu sempre sei quem sou, o que fui e o que serei.  Em inverno meu teto fica sempre mais longe de mim. Talvez o teto esteja maior, ou talvez eu apenas fique menor… no final o resultado é o mesmo e eu tenho mais espaço para essa estranha dança chamada viver.