Elegia ao primeiro canto
Ela me disse olá com a mesma sinceridade que pedia pão pela manhã na padaria. Não há sentimentos envolvidos em questões irrelevantes de semântica e convivio social.
No meu caso agradeci o olá com o meu gesto habitual, que nunca sabemos ser desprezo, felicidade plena ou nada. Ainda assim faço cumprimentos sistemáticos que refletem como um espelho o que pensam de mim.
Apenas aceito a opinião velada de meus personagens, esses amigos sinceros, que não me saudam com olás mas com histórias serenas do que sou e do que poderia vir a ser. Eles refletem pedaços de mim, de minha história.
Em algum outro lugar do universo há alguém dizendo um olá acompanhado de um sorriso. Talvez o sorriso seja o mesmo de quando compra pão pela manhã, mas certamente é melhor do que a indiferença que reina nas terras digitais, que hoje retorno como escriba.
Há uma nave ali fora. Pode ser de papelão, mas nela sou senhor e contramestre, sou um capitão de fragata de nuvens, e vejo através dos tempos o que eu sou e o que poderia ter sido. Me convenço facilmente que poderia ser algo melhor, por esse e outros motivos fico feliz em retornar a essa casa.
Tomo um café enquanto a pessoa do olá se distancia em outro olá e outra pessoa.
Eu fico sorrindo, solitario em meio ao café quente, como um louco vendo uma pintura abstrata.
Assim caminho para casa, construindo com os tijolos da calçada minha história escrita.
E vou eu. Certamente nos encontraremos por aí. Lembre-se de sorrir, ao dizer olá. Ainda que não seja eu, mas se não fizer bem ao transeunte solitário, fara bem a sua alma solitária.
E neste canto primeiro, com as velas estendidas e o vento quente do verão a soprar, eu caminho ciente de tê-los em minha jornada.
Sejam bem vindos novamente a ponte.
Captain