Quinta, 23 Maio, 2013
   
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Os quadrinhos e o mercado erótico: Lições que podemos aprender

Não existe muita novidade em termos de quadrinhos e erotismo, vide grandes artistas reconhecidos como Crepax, Manara ou Serpieri. Mas será que conseguiríamos aprender alguma coisa com uma das indústrias de entretenimento que mais crescem no mundo? 

Diferente do universo do entretenimento familiar o mercado erótico cresce a vistos olhos ao redor do mundo. Só em 2010 a feira erótica mais importante da Espanha declarou que o setor faturou a bagatela de 420 milhões de euros, a metade de tudo o que está previsto para investimento em cultura naquele país por seu governo. 

Agora, vamos olhar a cadeia produtiva do setor no Brasil:

 

Esse é um exemplo de uma indústria, que acertou a mão. Vide seus pares nos Estados Unidos, no Japão ou mesmo no Brasil. Lembrada sempre pelo seu lado obscuro, pornografia infantil ou hackers, as grandes empresas estabeleceram metas muito práticas para serem cumpridas, e investiram pesado nisso. Não seria falso afirmar que se temos uma internet como a que conhecemos hoje, muito se deve ao mercado pornográfico.  

Não se assuste com afirmações como essa. Há sites como a Wayback Machine que guarda a memória da internet, e se você fizer uma busca simples nele perceberá que as empresas que comercializam o "sexo digitall" investiam muito para disponibilizar seus conteúdos, mediante assinatura. Eles desenvolveram sistemas de pagamento on-line seguros antes que esse conceito tomasse forma. Sistema de logística para entregas de produtos e inclusive transmissão de seu conteúdo mediante assinatura. E isso muito antes da indústria familiar se movimentar para isso.
 
É uma visão romântica? Não. Prática. Por ser um mercado fechado, marginalizado ele buscou saídas cada vez mais sofisticadas. É como se fosse uma nemêsis do nosso mercado formal. Nesse caso, no quesito de direitos autorais eles tem uma grande vantagem: a grande maioria prefere o anonimato. 
 
A palavra pirataria não aparece vinculada a esses sites e conteúdos. Da mesma forma que as tiragens de revistas eróticas continuam altas em grande parte dos mercados. Há vozes que alertam sobre downloads de conteúdo ilegal, mas essas vozes, se comparadas com as do mercado formal de entretenimento soam de forma muito suave.

 

O grande problema aqui levantado é que o mercado erótico movimenta milhões e divulga essas informações. Logo é difícil aceitar o argumento de que eles perdem dinheiro. Há outros nichos verticais, apesar que muitos acreditam que o mercado erótico é horizontal, por não fazer distinção de gênero ou classe social, ou preferência sexual.
 
Porque esse mercado, dentre tantos cresceu? Um dos fatores certamente foi tratar a internet com respeito. Por serem pioneiros em estabelecer uma relação de confiabilidade com o seu público. Estou exagerando? Numa época de puritanismo é muito provável. Mas é um fato que poderíamos aprender com os sistemas de adaptação criados pelo mercado erótico. 
 
Diversificação e mudança. Os quadrinhos fazem parte dessa mudança também, e o melhor exemplo é que o primeiro colocado no google quando se procura a palavra-chave Quadrinhos seja dedicado a quadrinhos eróticos. Mas novamente a indústria editorial não nos diz com exatidão quando vende no Brasil. Mas uma Playboy por exemplo tem seu público cativo, e cada vez que uma atriz/BBB ou sei lá, aparece as cifras envolvidas são sempre respeitáveis, tanto de cachê quanto de venda de publicações avulsas. 
 
As estatísticas espanholas servem para mostrar que o mercado erótico se consolidou na cadeia produtiva de geração de renda. Eu sei que muitos estão pensando que esse é um artigo para coluna que não tem conteúdo significativo. Será? Carlos Zéfiro e os seus catecismos, revistas que nunca passaram perto de um ISSN ou ISBN, circulam até hoje em bancas, algumas especializadas nesse genêro. Como não há números para se comparar, esses títulos, ficam fora da estatística normal, seus artistas fora do círculo de premiações, porque novamente outro fator entra na história: grande parte deles assinam com pseudônimos e as publicações muitas vezes são mal impressas.
Nada disso atrapalha o fato de que eles conseguem vender, e provavelmente vender bem diga-se de passagem.
 
Livros de temática adulta, como "O Terceiro Travesseiro" direcionado ao público gay vendeu esse ano segundo dados da própria editora 15.000 exemplares, e é o mais vendido da América Latina no gênero. 
 
Não estar no mapa não quer dizer que não existe. Muitas vezes observando o que ninguém quer ver (ou pelo menos não querem ver o que procuramos) encontramos saídas organizadas que podem vir a se aplicada no entretenimento familiar, formal, ou qual nome achem mais apropriado. 
 
Semana que vem continuamos esse assunto, tratando de quadrinhos que não estão no mapa. 

Amauri de Paula escreve essa coluna para falar sobre Direitos autorais e internet. Você pode acompanhar o autor através do seu twitter @amauridepaula

 

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