
EXISTE jornalismo em quadrinhos pós-Joe Sacco.
Um bom exemplo é a série O Fotógrafo, misturando quadrinhos com fotojornalismo. Em 1986, por ser farmacista, o fotógrafo francês Didier Lefèvre acompanhou uma caravana da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras pelo Afeganistão. Nesta época guerrilheiros embriões do Talibã resistiam à invasão russa.

Mesmo com situações registradas através das lentes de sua câmera, o repórter fotográfico percebeu a necessidade de contar tais experiências além do registro iconográfico. Juntou-se ao desenhista Emmanuel Guibert e ao diagramador e colorista Frédéric Lemercier e em 2003 lançou a obra publicada aqui em terra brasilis pela Editora Conrad*.
O Fotógrafo rompe os paradigmas tradicionais de produção quadrinística e amalgama desenhos coloridos e fotografias em preto-e-branco, sem desequilibrar a importância de ambas no relato. É nesta linha de narrativa que observamos onde o disparo da câmera não aconteceu por temeridade de um disparo de fogo, ou uma situação inusitada e tão súbita que não foi absolvida pela angular das lentes a tempo.
(E foi também subitamente que Lefèvre morreu, em janeiro de 2007, vítima de um ataque cardíaco...)
Na Itália, a editora BeccoGiallo se especializou em quadrinhos investigativos, como Chernobyl - Di Cosa Sono Fatte Le Nuvole (sobre o famoso desastre nuclear ucraniano) e Il sequestro Moro - Storie dagli anni di Piombo (sobre o sequestro do político italiano Aldo Moro nos anos 1970), ambos do quadrinista Paolo Parisi.
A italiana Associazione Culturale Mirada organiza o Komikazen - Festival Internazionale del fumetto di realtà, evento que promove os quadrinhos de “realidade" desde 2005.

Tragédias recentes como o 11 de Setembro foram fontes para o relato gráfico. Em Le 11e jour, a francesa Sandrine Revel foi testemunha in loco do atentado. É uma HQ pessoal, onde não se encontra qualquer análise político-social sobre o tema.

Já The 9/11 Report: A Graphic Adaptation, de Sid Jacobson** e Ernie Cólon, adapta os relatórios de domínio público sobre o acontecimento. A ideia surgiu do desenhista Cólon, que sentiu dificuldades de entender o minucioso documento e entrou em contato com Jacobson, criador do personagem Riquinho (Richie Rich), para quadrinizá-lo.

Os atentados de 11 de março de 2004, em Madri, também foram adaptados através de laudos do tribunal espanhol. O resultado foi a produção de 11-M: La Novela Gráfica, por Pepe Gálvez, Antoni Guiral e Joan Mundet.
Nem sempre as abordagens desse gênero jornalístico têm seu foco na guerra ou em infortúnios. Apesar dele mesmo não considerar uma “reportagem gráfica”, o canadense Guy Delisle é um diretor de animação que documenta suas viagens em forma de quadrinhos. Desbravou lugares onde os jornalistas não são bem-vindos.
No Brasil foram publicados pela Zarabatana Books (não em ordem de lançamento original): Pyongang, sua estadia no país mais fechado do mundo, a Coreia do Norte, onde o autor conseguiu entrar com um exemplar de 1984, do George Orwell (!); Crônicas Birmanesas, sobre a viagem à Birmânia, país o qual EUA e Reino Unido não reconhecem o governo, em ativa desde os anos 1960; e Shenzhen, sua passagem pela China.

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